Amor à prova de bala: a Cimeira de Ancara reforçou a unidade dos Aliados, o apoio à Ucrânia e o valor dos investimentos em defesa

Amor à prova de bala: a Cimeira de Ancara reforçou a unidade dos Aliados, o apoio à Ucrânia e o valor dos investimentos em defesa

Andrea Neves, enviada especial da RTP Antena 1 a Ancara / Adicionar como fonte informativa
https://www.nato.int/

“Há uma palavra que define o dia de hoje: unidade. Nunca vi nada igual. Todos os países nos amam. Eles amam-se. Houve uma união tremenda. É uma coisa bonita de se dizer”

Foi assim que o Presidente dos Estados Unidos terminou a conferência de imprensa em Ancara, depois de um dia de anúncios e negação dos mesmos em poucas horas. Mas já lá vamos.

O dia ficou marcado pela defesa da unidade dos Aliados. Depois de Trump ter chegado a Ancara a recordar que tinha o desejo de controlar a Gronelândia, o ambiente ficou mais tenso do que se esperaria, mas lá dentro, dentro da sala da reunião, todos admitem que houve um único conceito: unidade.
“O que vi na sala com os 32 líderes reunidos foi um enorme sentido de unidade. Não vi isso na história recente da Aliança” reforçou Mark Rutte aos jornalistas.

“Sim, haverá debates mais acalorados. Às vezes, as pessoas argumentam aos berros, defendendo seus pontos de vista, e outras respondem da mesma forma. Nunca me preocupei com isso, porque, no fim das contas, são os alicerces da democracia que nos fortalecem. Não só nos fortalecem, no final, como também nos unem, como demonstra o que vimos hoje” acrescentou o Secretário-geral da NATO.

Questionado sobre se as declarações de Donald Trump põe em causa a coesão da Aliança, o Primeiro-Ministro português referiu que “vou reiterar aquilo que disse há pouco: à volta da mesa houve total convergência e consonância de pontos de vista sobre os assuntos que estavam a ser tratados. De todos, sem nenhuma exceção”.

“Não houve nenhuma querela nem nenhuma polémica nas intervenções de todos os Aliados e eu prefiro, portanto, concentrar-me nisso, que é aquilo que formalmente esteve em cima da mesa, do que nas tais perturbações que acontecem e que muitas vezes retiram a atenção daquilo que é essencial: a unidade em volta dos objetivos e dos princípios de funcionamento da Aliança Atlântica foram absolutos. Eu vou repetir porque foi mesmo assim: foram absolutos. Não houve uma única divergência relativamente aos objetivos de aproximar o investimento da Europa do investimento dos Estados Unidos da América do ponto de vista das capacidades, do ponto de vista das garantias dos grandes objetivos que são a dissuasão”.
Investimentos e NATO 3.0

“Acabámos de concluir uma Cimeira da NATO extremamente bem-sucedida aqui em Ancara. A mensagem é simples: a NATO cumpre o que promete” começou por salientar o Secretário-geral da Aliança.

“O investimento em defesa continua a aumentar, há novas capacidades a ser implementadas, a indústria está a expandir a produção e os aliados europeus e o Canadá estão a assumir maior responsabilidade pela nossa segurança partilhada. Estes são os alicerces para uma Aliança mais forte, mais justa e mais capaz”.

“Devo relembrar que nós cumprimos pela primeira vez o nosso compromisso com os nossos Aliados” recordou o Primeiro-ministro Luís Montenegro e “foi a primeira vez que o fizemos, desde que assumimos, em 2014, o compromisso de atingir 2% do nosso produto interno bruto em investimento na área da defesa”.

“Esta cimeira foi também uma oportunidade para nós demonstrarmos a nossa trajetória de investimento e a sua credibilidade. Posso até partilhar convosco que fomos alvo de um comentário positivo, muito positivo, diria mesmo elogioso, por parte do Secretário-geral da NATO relativamente à fiabilidade do compromisso que assumimos e da sua concretização”.


Luís Montenegro referiu os números, os de agora e os que o Governo quer alcançar:

“Como sabem nós, em 2025 superamos a meta dos 2% de investimento na defesa, o que significa um acréscimo de 38% face ao ano anterior. E temos desenhado, já para este ano de 2026, o reforço desse investimento – quer na componente exclusivamente dedicada à defesa, quer na componente de utilização dual – que vai fazer com que, de acordo com aquilo que é a nossa estimativa e expetativa, no final deste ano, o agregado destas duas componentes signifique cerca de 3,1 por cento do nosso Produto Interno Bruto já em 2026”.

Este valor refere-se ao agregado do investimento exclusivamente na defesa e do investimento em infraestruturas, nomeadamente as que permitem cumprir o objetivo dos investimentos de duplo uso (militar e civil).

“Estamos a falar de investimentos em infraestruturas, de energia, de comunicações, de várias áreas setoriais do governo, investimentos que também são contabilizados para podermos atingir o objetivo que está determinado desde a Cimeira de Haia dos 5 por cento”.

“Como sabem são 3, por cento de investimento em exclusivo em capacidades militares e 1,5 por cento nas demais áreas”.
Que áreas?

O Primeiro-ministro deu exemplos concretos: “a rede de energia do país, por exemplo, a rede de grandes infraestruturas que permitem maior mobilidade”.

“Eu diria até que o programa de transformação, Recuperação e resiliência que Portugal está hoje já a executar e que visa dar maior resistência e resiliência às nossas infraestruturas, incluindo infraestruturas críticas, é um plano que naturalmente contribui para que este volume cresça e cresça já em 2026. Porque estamos a falar de vários desses investimentos”.

Mas esta Cimeira marca também o ínicio de um novo modelo e o reforço do Pilar Europeu da NATO.

Isto, porque reunião de Haia, o ano passado, foi a cimeira da repartição de custos (burden sharing) – com os Estados Unidos a garantirem que todos se comprometiam com gastos de 5 por cento do PIB até 2035 (sendo 3,5 por cento em capacidades de defesa essenciais (capacidades militares, forças armadas, equipamento e treino) e 1,5 por cento do PIB para despesas relacionadas com defesa e segurança (cibersegurança, proteção de infraestruturas críticas e resiliência civil).

Já esta cimeira marcou a transferência de responsabilidades (burden shifting), com os Estados Unidos a retirarem-se gradualmente das obrigações de garantirem a segurança no Continente Europeu (uma responsabilidade que vai recair, cada vez mais, nas mãos dos Aliados europeus).

O Secretário-geral da NATO tinha mesmo dito que “a NATO, tal como a tínhamos há apenas três, quatro ou cinco anos, não era sustentável. Não é sustentável pedir a um país com 350 milhões de habitantes, que vive a oito horas de voo daqui, que nos defenda dos russos, com 600 milhões de pessoas a viver nesta parte do território da NATO, a região mais rica do mundo, sendo tão dependente dos Estados Unidos”.

Por isso a improtância do investimento em defesa, sim, mas a necessidade de ter mais indústria a produzir mais capacidades, meios, materiais e equipamentos para que os Aliados Europeus possam assumir as novas responsabilidades de defesa e segurança da Europa.
A indústria de defesa

“O Fórum da Indústria de Defesa desta Cimeira demonstrou a determinação dos governos e da indústria em trabalhar em conjunto com maior rapidez e ambição. E os números são impressionantes, incluindo mais de 50 mil milhões de dólares em novos contratos de aquisição em apenas um dia” anunciou o Secretário-geral da NATO no fim da Cimeira.

“Também lançamos uma nova iniciativa importante, os drones da NATO, que receberá um investimento de 40 mil milhões dos Aliados em sistemas não tripulados nos próximos cinco anos. Esses novos investimentos e compromissos industriais anunciados aqui vão ajudar a fortalecer nossa defesa coletiva, ao mesmo tempo que apoiam a inovação, o crescimento económico e, claro, empregos qualificados em toda a Aliança”.

“Não se trata simplesmente de gastar mais” reforçou Mark Rutte, “trata-se de garantir que as nossas forças armadas têm o que precisam para manter a nossa população de 1 bilião de pessoas segura em um mundo mais perigoso. Isto significa acelerar a produção, eliminar barreiras, aumentar a resiliência, investir em inovação e trabalhar com parceiros para maximizar a cooperação”.

Portugal participou neste fórum com a representação de 3 empresas. À pergunta sobre se não foi uma oportunidade perdida para mostra as potencialidades nacionais – até porque há cerca de um mês Portugal teve 40 empresas numa iniciativa em Bruxelas, no Quartel-general da NATO, numa iniciativa que marcou o dia da indústria de defesa nacional – o Primeiro-ministro referiu que “como sabem temos nós próprios, com as nossas Forças Armadas, realizado várias iniciativas que visam partilhar conhecimento, partilhar trabalho, partilhar disponibilidade, partilhar condições para o investimento”.

“Nós estamos a alavancar, nós próprios no Governo, investimentos nessa área, na área dos componentes das munições e, o que é nossa convicção, podem acomodar, por um lado, a expressão do nosso conhecimento científico, da nossa capacidade de inovação. Por outro lado, outros objetivos: a retenção de capital humano, a abertura de maiores oportunidades de emprego, nomeadamente a jovens qualificados, e a dinamização de indústrias complementares que criam um ecossistema económico que deve e seguramente vai estimular também a nossa economia”.

“Nós conseguimos equilibrar o nosso desempenho financeiro com o aumento da nossa despesa nesta área. Efetivamente estamos a investir mais, mas com esta nota: são milhares, milhões de euros que vão ter o retorno em melhor emprego, em atividade económica, em prestação de serviços em todo o ecossistema da área da segurança e defesa, que pode e deve ser estimulado e aproveitado”.

Mark Rutte aproveitou para fazer mais um anúncio “este trabalho deve continuar, e é por isso que tenho o prazer de anunciar que os Aliados estão a dar um passo histórico para aprimorar a cadeia de suprimentos de combustível da NATO, para garantir que nossas forças tenham o suprimento de energia necessário para a prontidão para o combate”.
 
“Embora os aliados continuem a finalizar os detalhes, sabemos que esse investimento de € 27 mil milhões de euros modernizará nossa infraestrutura existente de armazenamento e distribuição de combustível e apoiará novas instalações, incluindo oleodutos, na parte leste da aliança”.
As guerras de Trump

Questionado sobre se os Estados Unidos aceitariam ajudar um dos países que se recusou a ajudar Washington na guerra com o Irão, o Presidente dos Estados Unidos suavizou a questão depois de ter começado o dia a dizer que não queria sequer falar com a Espanha ou receber o Pedro Sánchez e que o objetivo era cortar todas as relações comerciais com Espanha.

“Bem, primeiro, a Espanha portou-se muito mal. Mas a Itália comportou-se bem e quase todos os países se portaram bem. Eles só tiveram um mau momento e não nos ajudaram. Não precisávamos da ajuda deles. Mas o Reino Unido deu uma resposta ainda mais estranha: Eles disseram “sim, mas queremos esperar até a guerra acabar”. Isso não estava de acordo com o espírito de Winston Churchill”.
No fim do dia Donald Trump disse que não acreditar que a guerra com o Irão vá recomeçar. 

Na conferência de imprensa final depois da Cimeira em Ancara, o Presidente dos Estados disse que se alguma coisa houver "será rápida". Isto depois de na manhã da Cimeira ter dito que não queria negociar mais com Terrão e que o cessar-fogo tinha terminado.

“Não acho que vá recomeçar. Acho que vai acabar muito rápido. Eles atingiram alguns navios, então respondemos com muito mais força. Quando eles nos atingem, nós respondemos de forma dez vezes mais forte, respondemos sempre com muito mais força do que eles. Temos equipamentos muito melhores do que eles. Usamos a língua deles. Falamos a língua deles”.

E reforçou “não, não acho que vá começar. Acho que tudo o que acontecer vai acabar muito rápido, e só vamos tornar as coisas mais seguras, inclusive para o petróleo. O petróleo vai ser muito fácil de extrair, muito acessível, e tudo vai acontecer muito rápido”.

O Secretário-geral da NATO diz que a questão do Irão está fora do âmbito territorial da NATO e que a questão se relaciona mais “com os acordos bilaterais dos Aliados com os Estados Unidos, negociados ao longo dos anos, no que se refere, por exemplo, do uso de bases”

“A posição política da NATO é clara há anos: o Irão não deve ter capacidade nuclear nem capacidade de mísseis balísticos. Não há dúvidas quanto a isso. Este é o lado político. Depois há o lado prático. A própria NATO não está envolvida. Isso está fora do território da NATO. Mas, existem, é claro, acordos bilaterais que os Estados Unidos negociaram ao longo dos anos com Aliados na Europa”.

“E eu sei que os Estados Unidos estão dececionados com isso. E o que eu ressaltei é que se trata de casos individuais, casos isolados. Quando se olha para a Europa como um todo, em larga escala, os europeus cumpriram o que tinham acordado bilateralmente com os Estados Unidos em relação a esses acordos. E isso levou, no total, a até 5.000 missões a partir de bases europeias no contexto da Operação Fúria Épica, e eu diria que a Operação Fúria Épica teria sido muito difícil de realizar sem que a Europa fosse uma plataforma de projeção de poder para os Estados Unidos”.
O Secretário-geral da NATO salienta que “essa é uma das razões pelas quais os Estados Unidos investem nos seus Aliados na Europa: para se protegerem dos submarinos nucleares russos, evitando que cheguem às costas dos Estados Unidos, mas também, por exemplo, para garantir que possam utilizar essas bases nesta região. E, em larga escala, isso foi feito”.

Donald Trump não se alongou muito mas o Presidente dos Estados Unidos admite vir a assumir o controlo do urânio armazenado em instalações no Irão.

Trump diz que o local está a ser vigiado e que se alguém se tentar aproximar será eliminado.

“Nunca veremos o Irão a ter uma arma nuclear. Preciso de garantir que não temos lunáticos a controlar armas nucleares. Por isso temos câmaras no local. E temos lá uma força Espacial. Eles estão no terreno, mas também estamos a monitorizar. E se alguém se aproximar, será atingido por uma explosão, por isso ninguém vai tocar naqueles materiais. Eventualmente, nós vamos tomar o controlo daquilo”.

Luís Montenegro refere a posição portuguesa “nós reafirmamos ao longo deste tempo, que a via diplomática e negocial é a via correta para poder restabelecer a normalidade no Médio Oriente. Aquilo que nós desejamos é que este processo possa ter menos perturbação e possa ter mais consistência ao longo do tempo. Que, não obstante algumas polémicas intermitentes na relação entre as partes envolvidas, possa preponderar aquilo que é essencial, que é uma solução de cessar-fogo e uma solução que permita restabelecer a normalidade naquela região”.

Já no que se refere à Gronelândia, o tema parece ter incendiado a manhã da cimeira para arrefecer com a Noite.

Trump não voltou a falar do assunto, mas o Secretário-Geral da NATO foi questionado sobre como analisava o facto de o Presidente dos Estados Unidos ter reforçado a vontade de controlar a região.

“Em primeiro lugar, a questão da defesa do Ártico é crucial, pois existe um enorme risco de a Rússia e a China obterem cada vez mais acesso ao Ártico. E a discussão que tivemos e o acordo que fizemos em Davos diz respeito à NATO, particularmente aos sete países que fazem fronteira com o Ártico, incluindo, é claro, os EUA , e os cinco Aliados europeus – Islândia, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega – para trabalharem em juntos, apoiados por todos os outros aliados, garantindo a segurança do Ártico”.

Mas Rutte assegura que as outras questões estão no âmbito das “negociações trilaterais entre os EUA, a Groenlândia e a Dinamarca, lideradas pelos ministros das Relações Exteriores dos Estados Unidos, da Groenlândia e da Dinamarca, basicamente para garantir que quaisquer investimentos relacionados à Cúpula Dourada ou ao destacamento de tropas na Groenlândia sejam realizados no futuro”.



Assumiu-se um compromisso de manter o apoio à Ucrânia de 80 mil milhões de dólares este ano e em 2027.

Portugal vai reforçá-lo, diz o primeiro-ministro.

“Tivemos ocasião, como de resto todos os Aliados o fizeram à volta da mesa, de reafirmar o nosso apoio à Ucrânia, cuja luta é absolutamente crucial para a nossa segurança, para a preservação dos nossos valores democráticos”.

“E é no âmbito do apoio à Ucrânia, pude reafirmar o nosso compromisso de reeditar, em 2026, o apoio militar e financeiro que realizámos nos dois anos anteriores e que irá acrescer uma participação no Programa de Apoio à Defesa Antiaérea da Ucrânia, no montante que andará à volta dos 60 milhões de dólares, ou seja, cerca de 50 milhões de euros”.

Mas a grande conquista foi alcançada por Volodymyr Zelensky: Os Estados Unidos concordaram em conceder à Ucrânia uma licença para fabricar mísseis interoceptores do sistema de defesa aérea Patriot em território ucraniano.
 
A promessa foi feita pelo presidente norte-americano, Donald Trump, diretamente ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, abrindo caminho para a produção local e exportação para outros países europeus.

Note-se que é preciso ainda que Trump convença as empresas a aceitar esta cedência.

E recorde-se que Zelensky tinha chegado à Cimeira a pedir mais patriots e a possibilidade de ter licenças de produção.

“Enquanto esta guerra continua, por favor, ajudem-nos a obter mais mísseis de defesa aérea. Esta é a nossa principal prioridade agora. Somos capazes de fazer todo o resto sozinhos. Mas quando se trata de defesa aérea, precisamos da determinação de nossos parceiros. Por favor, façam com que mais determinação e mais decisões para a defesa aérea sejam um dos principais resultados desta cúpula da NATO em Ancara”.

Um pedido repetido que, ao que tudo indica, desta vez terá resposta.
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